No Dia dos Namorados.
Contou doze passas e pediu doze desejos. Sonhou que era rei, que o mundo sorria, que o avião voava. Sonhou que passava 366 dias nas nuvens, não apenas um, talvez nem apenas 366 dias, talvez mais. Não apenas um ano, ou dois meses. Pensou na palavra amor e escorregou na calçada portuguesa. Não só escorregou, como também partiu o pé esquerdo, caiu do precipício e adormeceu. Sonhou que não ficava em casa, nem ficaria sozinho. Pensou que o outro lado da estrada era tão longe, pegou no carro, e quebrou a muralha dos pensamentos. Viu casais a atravessar a passadeira de mão dada, viu o sorriso maroto para o melhor amigo, adivinhou o futuro e parou junto ao muro do jardim. Atirou a primeira pedra. Saiu do carro, e entrou em Lisboa. Viu a vela brilhar incansável. A vela com a luz de Lisboa. Mas com o aroma a morango. Leu a mensagem na calçada e paralisou. Perguntou-se se sonhava. Descreveu Lisboa com um lápis de cor cinzenta. Sentiu o vento na cara, o frio no corpo magro, nu. Respirou fundo três vezes, guardou uma pedra no bolso. Ou no peito. Já não sabe. O mosaico português. O vermelho substituído por preto e branco. O fogo pela chuva, chuva que não mata mas mói. Do nada o silêncio virou palavra. A palavra. O alerta vermelho. Ou assim assim. Sonhava. A qualquer momento iria acordar, e estar de volta à cama, agarrado ao gato. A véspera passou a ser o dia. O dia passou a ser o véspera do amanhã. Dizem que o amor não pede licença para entrar, mas também não pede para sair. A palavra voltou ao silêncio. A rotina do "mais do mesmo". A rotina do continuar, um dia igual aos outros. Um dos 366, ou apenas o dia extra. Aquele que pediu nas doze passas. Não soube o que aconteceu, talvez nunca saberá.
No Dia de São Valentim ficou em casa ou saiu sozinho.
Ou sonhou.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
domingo, 7 de fevereiro de 2016
Adeus à Carne.
"Adeus à carne"
Gritam de Torres a Lisboa. Ouviu-se o grito silencioso, das trinta e nove chicotadas. De Belém ao Cais do Sodré. Quarenta dias de jejum. Será? Não. As máscaras apenas vão sair à rua, os crentes e não crentes vão contar os dias até se reunirem com as famílias. Por agora: Veste-se uma roupa engraçada. O simbolismo fica no passado. No coração de alguns. O que importa é vestir o fato da avó, um corpo azul, a pele de uma personagem, a roupa de um génio, os óculos fundo de garrafa, a cabeleira morena ou loira, o nariz de palhaço, o chapéu de bruxa. Hoje podemos ser quem quisermos. Eu? Eu fujo aos palhaços. Fujo às máscaras que me olham pelo canto de olho. Troco olhares descarados mas não os trago para casa. Visto eu uma máscara, e caminho. Que saudades de vestir uma máscara, mas não hoje. O meu caminho é para a frente. Da Estrela à Baixa Chiado. Veem-se Princesas, tartarugas Ninja, pais a passear crianças, crianças a passearem os pais. Veem-se turistas a visitar a nossa Lisboa, a nossa "imperfeição criteriosa". Faltam ainda os confetes e os desfiles, os narizes de palhaço, e as pinturas na cara. Deixam-nos para segunda-feira ou terça-feira. Lisboa fugiu para Torres. Eu fico por aqui. Está frio, e estou a escrever. Amanhã há trabalho. É este o meu Carnaval. E dizem que no Carnaval ninguém leva a mal. Por isso posso ficar por aqui. E quero ficar aqui. Podia ficar ali também, em cima do palco. Saudades de vestir uma máscara, e estar em cima do palco. Ou estar apenas nú. Estar no palco, mas não hoje. Hoje é altura de Carnaval. Tinha tudo para funcionar: rapaz do palco, roupa, maquilhagem, divertimento, festa. No entanto, não gosto do Carnaval. Bem, não é que não goste. Não gosto de palhaços, de máscaras, de bombas de cheiro, de pessoas parvas.
Pronto. Não gosto do Carnaval.
Vejo-o de fora.
E também não digo "Adeus à Carne".
Por hoje, esqueço a máscara.
E sou quem sou.
sábado, 6 de fevereiro de 2016
Devaneios do Pintassilgo
Devaneios do Pintassilgo
Perdi-me do jeito que ninguém se perde. Sentei-me no interior das paredes e acabei por ficar lá. Toquei na parede fria, raspei as unhas, uma e outra vez. Agarraram-me as mãos, tocaram-me na cara, olharam-me nos olhos e disseram “Pára!”. Não vi quem me agarrou. Os olhos embaciados não permitiram e, não reconheci a voz que me falou. Parei. Jurei nunca mais raspar as unhas, jurei sair dali. Saí. Porque não sairia? Também eu podia sair das paredes, atravessar o relvado, jogar-me ao rio, voar... como um Pintassilgo. Ouvi alguém cantar, uma e outra vez. Cantava e eu não compreendia. Contava uma história, que não era minha. Pensei que podia ser outro eu a cantar. Mas aquele canto não era o meu. Não era o canto que eu conhecia. Não era o canto que me adormecia. Parei. Era o canto do Pintassilgo. Por momentos esqueci-me que estava a vê-lo. Esqueci-me que existia e o tempo ficou assim. Fechei os olhos, procurei outros cantos. Deixei de estar no interior das paredes. Deixei de raspar as unhas. Fiquei a observar no canto. À noite, o canto voltou. Uma melodia incansável. E tudo se repetiu: Parede. Mãos. Cara. Olhos. “Pára”. Abri os olhos, tentei falar. Não tinha voz. Não tinha palavras. Parei. Saí de casa com as mãos nos ouvidos. Levei um livro comigo. Branco. Nem uma linha por ler. Nem uma palavra. Nem um devaneio. Pensei em escrever mas as palavras que caíram em desuso, devem ficar no passado.
Perdi-me do jeito que ninguém se perde. Sentei-me no interior das paredes e acabei por ficar lá. Toquei na parede fria, raspei as unhas, uma e outra vez. Agarraram-me as mãos, tocaram-me na cara, olharam-me nos olhos e disseram “Pára!”. Não vi quem me agarrou. Os olhos embaciados não permitiram e, não reconheci a voz que me falou. Parei. Jurei nunca mais raspar as unhas, jurei sair dali. Saí. Porque não sairia? Também eu podia sair das paredes, atravessar o relvado, jogar-me ao rio, voar... como um Pintassilgo. Ouvi alguém cantar, uma e outra vez. Cantava e eu não compreendia. Contava uma história, que não era minha. Pensei que podia ser outro eu a cantar. Mas aquele canto não era o meu. Não era o canto que eu conhecia. Não era o canto que me adormecia. Parei. Era o canto do Pintassilgo. Por momentos esqueci-me que estava a vê-lo. Esqueci-me que existia e o tempo ficou assim. Fechei os olhos, procurei outros cantos. Deixei de estar no interior das paredes. Deixei de raspar as unhas. Fiquei a observar no canto. À noite, o canto voltou. Uma melodia incansável. E tudo se repetiu: Parede. Mãos. Cara. Olhos. “Pára”. Abri os olhos, tentei falar. Não tinha voz. Não tinha palavras. Parei. Saí de casa com as mãos nos ouvidos. Levei um livro comigo. Branco. Nem uma linha por ler. Nem uma palavra. Nem um devaneio. Pensei em escrever mas as palavras que caíram em desuso, devem ficar no passado.
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