Devaneios do Pintassilgo
Perdi-me do jeito que ninguém se perde. Sentei-me no interior das paredes e acabei por ficar lá. Toquei na parede fria, raspei as unhas, uma e outra vez. Agarraram-me as mãos, tocaram-me na cara, olharam-me nos olhos e disseram “Pára!”. Não vi quem me agarrou. Os olhos embaciados não permitiram e, não reconheci a voz que me falou. Parei. Jurei nunca mais raspar as unhas, jurei sair dali. Saí. Porque não sairia? Também eu podia sair das paredes, atravessar o relvado, jogar-me ao rio, voar... como um Pintassilgo.
Ouvi alguém cantar, uma e outra vez. Cantava e eu não compreendia. Contava uma história, que não era minha. Pensei que podia ser outro eu a cantar. Mas aquele canto não era o meu. Não era o canto que eu conhecia. Não era o canto que me adormecia. Parei. Era o canto do Pintassilgo.
Por momentos esqueci-me que estava a vê-lo. Esqueci-me que existia e o tempo ficou assim. Fechei os olhos, procurei outros cantos. Deixei de estar no interior das paredes. Deixei de raspar as unhas. Fiquei a observar no canto. À noite, o canto voltou. Uma melodia incansável. E tudo se repetiu: Parede. Mãos. Cara. Olhos. “Pára”. Abri os olhos, tentei falar. Não tinha voz. Não tinha palavras. Parei. Saí de casa com as mãos nos ouvidos.
Levei um livro comigo. Branco. Nem uma linha por ler. Nem uma palavra. Nem um devaneio.
Pensei em escrever mas as palavras que caíram em desuso, devem ficar no passado.

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