domingo, 14 de fevereiro de 2016

No Dia dos Namorados

No Dia dos Namorados.
Contou doze passas e pediu doze desejos. Sonhou que era rei, que o mundo sorria, que o avião voava. Sonhou que passava 366 dias nas nuvens, não apenas um, talvez nem apenas 366 dias, talvez mais. Não apenas um ano, ou dois meses. Pensou na palavra amor e escorregou na calçada portuguesa. Não só escorregou, como também partiu o pé esquerdo, caiu do precipício e adormeceu. Sonhou que não ficava em casa, nem ficaria sozinho. Pensou que o outro lado da estrada era tão longe, pegou no carro, e quebrou a muralha dos pensamentos. Viu casais a atravessar a passadeira de mão dada, viu o sorriso maroto para o melhor amigo, adivinhou o futuro e parou junto ao muro do jardim. Atirou a primeira pedra. Saiu do carro, e entrou em Lisboa. Viu a vela brilhar incansável. A vela com a luz de Lisboa. Mas com o aroma a morango. Leu a mensagem na calçada e paralisou. Perguntou-se se sonhava. Descreveu Lisboa com um lápis de cor cinzenta. Sentiu o vento na cara, o frio no corpo magro, nu. Respirou fundo três vezes, guardou uma pedra no bolso. Ou no peito. Já não sabe. O mosaico português. O vermelho substituído por preto e branco. O fogo pela chuva, chuva que não mata mas mói. Do nada o silêncio virou palavra. A palavra. O alerta vermelho. Ou assim assim. Sonhava. A qualquer momento iria acordar, e estar de volta à cama, agarrado ao gato. A véspera passou a ser o dia. O dia passou a ser o véspera do amanhã. Dizem que o amor não pede licença para entrar, mas também não pede para sair. A palavra voltou ao silêncio. A rotina do "mais do mesmo". A rotina do continuar, um dia igual aos outros. Um dos 366, ou apenas o dia extra. Aquele que pediu nas doze passas. Não soube o que aconteceu, talvez nunca saberá.

No Dia de São Valentim ficou em casa ou saiu sozinho.
Ou sonhou.

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